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Martha Irene Togra Campòverde
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Férias são para descansar, mas há quem as use para servir e ser útil às pessoas
Domingo, 02 Agosto 2009 09:00

Número de portugueses que vão apoiar missões católicas em países pobres disparou este ano. São sobretudo jovens e ficam por pouco tempo

A Marisa Sapina recorda-se de quando esteve na Guiné-Bissau há seis anos e uma criança lhe pediu uma colher - não tinha nenhuma. "Quem entre nós não tem dezenas de colheres? Mas dar uma colher naquela situação era estragar o trabalho que estava ali a fazer. Disse ao miúdo que iria tentar arranjar. Falei com as irmãs da missão e só uns dias depois de eu vir embora elas deram a colher."

Foi a primeira experiência de Marisa, professora de línguas, como leiga missionária, apoiando no terreno o trabalho das missões católicas em países mais pobres - o número dos portugueses que o fazem disparou este ano e as férias são uma altura privilegiada para colaborarem em missões nos países em desenvolvimento.

"Quando vêem os estrangeiros, vêm pedir. Mas isso não é educar para o desenvolvimento." Por isso, não dar uma colher, uma t-shirt ou outra coisa, naquele momento, pode ajudar a mudar a vida daquelas populações mais pobres. "Para tentarem lutar pelas coisas."

Marisa conta situações em que os adultos da aldeia podem ajudar a construir um pequeno equipamento para beneficiar a comunidade. Em troca, recebem alguma coisa para si próprios.

"O trabalho principal é a presença, mostrar que estamos ao mesmo nível que as outras pessoas", acrescenta Marisa Sapina. "Quando estive esse mês na Guiné, penso que ajudei as pessoas podendo ouvi-las, brincar com as crianças, dar aulas de português e ajudar na enfermaria."

Agora, de novo para apoiar uma missão dos Missionários da Consolata, Marisa partirá no dia 10 com oito pessoas para Vilankulo (Inhambane), em Moçambique. Acompanhará um grupo de cinco alunos e uma professora do Colégio de Santa Doroteia (Lisboa), que venceu um concurso instituído por aquela congregação religiosa sobre os Objectivos do Milénio proclamados pelas Nações Unidas.

Experiências para a vida

"Creio que será a experiência da minha vida", diz Maria Teresa Vitória, 43 anos, professora de Física e Química no colégio e que irá também a Moçambique. Foi na disciplina de Área de Projecto que o grupo vencedor fez um filme sobre a igualdade entre os sexos - o colégio teve cinco grupos, todos finalistas do concurso e, desses, dois ganharam prémios.

"Pensámos que aquele tema poderia resumir tudo: se as mães estiverem informadas podemos reduzir a mortalidade infantil, reduzir a fome...", diz David Gurita, 18 anos, aluno do 12.º ano e um dos que irá para Moçambique. "Iremos trabalhar com crianças e mostrar-lhes um desenho animado que fizemos e onde se mostra que o pai é igual à mãe e que pode cooperar."

Mesmo não sendo crente - o único entre os colegas -, David diz que já estão "habituados a ouvir falar do amor ao próximo e a fazer campanhas de solidariedade". "Os alunos cresceram neste ambiente e quiseram fazer algo que os desafiasse", diz a professora Teresa Vitória. "Pessoalmente, eu nunca pensaria em ir fazer uma experiência como esta. Nunca vivi assim, sem luz, sem água, num sítio de grande pobreza. Penso que virei mudada."

"Iremos ajudar em tudo o que seja preciso: escola, explicações", diz Marisa, que integra os Leigos Missionários da Consolata, estrutura criada pela congregação religiosa para este tipo de experiência. "Tem a ver com o ideal de Jesus, de estar próximo de quem precisa, seja aqui ou fora do país, é um ideal para a vida toda."
Luísa Matos, 28 anos, educadora de infância, e Patrícia Pereira, 23, publicitária, partiram já ontem para um mês na ilha de Santiago (Cabo Verde), integradas num grupo de 14 elementos da associação Sol Sem Fronteiras. Este grupo, ligado aos Missionários do Espírito Santo, tem previsto um conjunto de acções, durante um mês, na paróquia de Nossa Senhora da Luz.

Educação, saúde, cultura

"Vamos falar de direitos humanos, educação para a saúde, direitos da criança, poupança de água, doenças sexualmente transmissíveis, de como se apanha a sida e como se pode prevenir", diz Patrícia. Aulas de informática para adultos estão também previstas, com oito computadores que ficarão depois para uso nos serviços da paróquia e instituições sociais. Patrícia gastará, como vários do grupo, as suas férias nesta actividade. "É a forma de dar, de ser solidária. Quero ir e servir, ver o que posso fazer para ser útil às pessoas."

Luísa ficou com "o bichinho" com o que foi ouvindo a outros companheiros. Pessoalmente, irá sobretudo dinamizar a ocupação de tempos livres de crianças e animar oficinas de pedagogia e liderança e de expressão corporal e dramática. A experiência de ser solidária poderia ser feita com outra organização qualquer, admite Luísa. Mas "tendo fé vivemos as coisas de outra forma, mais a nível da espiritualidade".

Quem já fez experiências como estas, percebe a vontade de ir - e de voltar. Lina Rosa, médica aposentada de Valadares (Gaia), ficou "muito chocada" quando chegou em Abril a Manalana (arredores do Maputo), em Moçambique, onde ficou por quase três meses.

"A pobreza, os jovens sem projectos de vida" foi o que mais a transtornou. Mas tem uma certeza: "Para o ano volto". Na aldeia, Lina Rosa e a restante equipa que trabalha com os missionários montou uma espécie de centro de saúde. "Não fomos com pretensão de ensinar, só ajudar. E ainda aprendemos: uma rapariga de 29 anos, que perdeu a visão em 2005, virou-se para nós a dizer: 'Graças a Deus, ele deu-me força para, apesar de cega, ainda conseguir tomar conta dos meus filhos.'"

Nuno Morais, 25 anos, de Ermesinde, que deixa Portugal amanhã, é o único dos 11 entrevistados pelo PÚBLICO que não irá trabalhar num país lusófono - destino maioritário para os voluntários. Estará três semanas numa aldeia a uns 60 quilómetros de Dodoma, a capital da Tanzânia, para ajudar a construir três infantários.

O grupo, de 14 pessoas, faz parte também dos Leigos Missionários da Consolata. Depois de três anos de formação - etapa obrigatória em qualquer um destes grupos -, Nuno decidiu partir agora por estar desempregado (é licenciado em Biologia Marinha). "Mas se não fosse agora, iria mais tarde." "Ser cristão impele-me a fazer algo mais, exige uma maior entrega ao que fazemos e uma maior disponibilidade", afirma.

António Marujo, Jornal Público

 
Voluntários, 2009 o ano do maior crescimento
Terça, 30 Junho 2009 09:00

Número de voluntários está a crescer

Os leigos voluntários missionários são uma tendência em crescendo na Igreja Católica, em Portugal. De 2008 para 2009, passaram de 283 para 381 - este ano, há mais uma centena de pessoas (a maior parte jovens e jovens adultos) que, durante um tempo, partem para outros países.

Nas últimas duas décadas, o crescimento foi lento. Segundo os dados da Fundação Evangelização e Culturas, houve em 20 anos um total de 3447 pessoas a fazer a experiência. A maior parte, fazendo-o por curtos períodos (nas férias escolares, por exemplo), outros dedicando ao projecto um período mais largo de um ano, por vezes dois.

Daquele universo, mais de metade (2070) partiram nos últimos sete anos. De 2003 a 2008, o número de partidas anuais oscilara entre as 261 (em 2006) e as 301 (em 2004). Este ano de 2009 conheceu o maior aumento - a que correspondeu também o crescimento do número de entidades envolvidas, que passou de 37, no ano passado, para 44, este ano. No que diz respeito às pessoas que partem por períodos entre um a dois anos, 2004 foi o ano que registou maior número: 99. Este ano são 60.

Jornal Público

Voluntariado internacional alia solidariedade à aventura

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Dossier Futuro. O que nos reserva o futuro? (parte I)
Sexta, 26 Junho 2009 09:00

A crise instalou-se. A palavra já não gera controvérsia e a frase “o mundo está a mudar” tornou-se um lugar comum. A mudança cria incerteza e a incerteza medo. Emerge o impulso de saber o que reserva o futuro. Numa ciência nem sempre exacta como a económica, restam a percepção e expectativas de agentes económicos atentos aos mercados. E ao mundo.

Estamos a braços com uma crise financeira mundial. Quando nos julgávamos imunes à derrocada e nacionalização de bancos, surge a nacionalização do Banco Português de Negócios. Os governos injectam dinheiro na economia em montantes cujos zeros parecem não ter fim. De onde vem esse dinheiro? Quem está a financiar as economias ocidentais? A crise, embora afecte também as economias emergentes, parece ter trazido a possibilidade de reforçar a sua posição no mundo.

A dívida pública americana, que alguns economistas consideram ser uma bomba relógio, tem no topo do ranking de governos estrangeiros subscritores, países como o Japão, a China e a Arábia Saudita. O destino da dívida pública europeia não é muito diferente. Até o Estado português está a desenvolver contactos com a SAFE, a agência que administra as reservas monetárias da China, com o objectivo de atrair um investidor de peso para os títulos de dívida pública nacionais.

Por outro lado, não podemos esquecer que países emergentes como a China, a Índia e o Brasil estão a injectar liquidez nas economias ditas desenvolvidas com as receitas das exportações que lhes destinaram, e que têm ajudado a tirar da pobreza parte da sua população. Segundo dados do Banco Mundial, desde as reformas económicas que a China introduziu na década de 70, mais de 400 milhões de pessoas naquele país escaparam à pobreza, embora se registe um aumento do fosso entre ricos e pobres e um outro conjunto de problemas sociais e ambientais.

Que consequências terão estes movimentos de capital em termos geo-políticos? Quem controla a dívida pública de um país, não controlará também, de certa forma, o seu futuro? Os EUA tenderão a perder o título de maior economia do mundo? Quem vai ditar as regras no mercado global?

«Dada a interdependência das economias à escala do globo, também os países emergentes estão a ser afectados pela crise financeira e seus efeitos colaterais, em virtude, sobretudo, da redução do consumo nas economias desenvolvidas, para onde exportam. Mas também é verdade que o centro nevrálgico da economia mundial se está a deslocar para Oriente, onde se regista um crescente desenvolvimento tecnológico, a mão-de-obra continua barata e produtiva, as matérias-primas abundam e o consumo sobe», sublinha Armindo Monteiro, presidente da Associação Nacional de Jovens Empresários (ANJE).    

Embora não antecipe que o reforço do crédito da China e da Índia aos EUA e à Europa possa, a curto-prazo, reforçar significativamente o poder económico daqueles países, João Lampreia, analista da equipa de Research do Banco BIG, afirma que o mesmo não poderá dizer-se num horizonte temporal mais alargado. «Esta medida, juntamente com a entrada de alguns fundos soberanos em grande empresas, acabam por reforçar o peso daqueles países no cenário internacional». Paralelamente – sublinha – não pode assumir-se que a Índia, e em especial a China, tenham economicamente uma grande dependência face às principais economias mundiais. Daí que as reservas monetárias obtidas sejam reinvestidas em dívida pública.

O que aprendemos com a crise?

Muitas perguntas nos invadem quando assistimos às últimas notícias do mundo económico. Que oportunidades emergem? Qual o posicionamento de Portugal no contexto global? Que sectores sobreviverão? O que acontecerá ao mercado de trabalho? Que profissões terão mais saída e quais perdem protagonismo? E que ensinamentos podemos retirar da crise?

«Não existem máquinas de fazer dinheiro». Para o leiriense Paulo Morgado, presidente da Capgemini Portugal, a crise financeira mundial vem relembrar-nos sobretudo essa velha máxima.

«O mercado financeiro tem de obedecer a princípios e valores éticos, pois a regulamentação e supervisão, por muito apertada que seja, não garante, por si só, lisura, transparência e responsabilidade social nas operações financeiras», defende Armindo Monteiro, salientando que a crise financeira veio também mostrar «que todos os paradigmas têm limites, podem gerar efeitos perversos e não devem ser encarados de forma dogmática».

Importa ainda atentar - sublinha - que não é o crédito às empresas que é arriscado. «Hoje não se empresta dinheiro às empresas, mas não foram as empresas que deixaram a banca assim. A remuneração que as PME oferecem não promete a lua, mas existe. Para recuperar a confiança, a banca tem de voltar à economia real, limitar-se a intermediar o negócio da compra e venda de dinheiro», conclui.

«Estes acontecimentos (crise do subprime) ensinaram-nos que não se podem cometer os excessos na atribuição de crédito a que assistimos, o que tem levado uma maior contenção no crédito e ao repricing dos spreads dos empréstimos», aponta João Lampreia. Os últimos acontecimentos no mundo financeiro evidenciam ainda «a grande importância dos bancos centrais no início das crises financeiras», explica, referindo-se à célere intervenção do BCE. No que toca à eventual necessidade de aumentar a regulação do sistema financeiro, João Lampreia considera que não deve ser esse o tema central, mas «a auto-regulação das próprias instituições, assim como um maior grau de controlo dos accionistas ao nível das estratégias tomadas».

O todo sobre as partes: a visão de Capra

No livro “O Ponto de Mutação”, o físico Fritjof Capra defende a tese de que os problemas que o mundo hoje enfrenta – desemprego, crise energética, poluição e desastres ambientais, para citar apenas alguns – representam diferentes facetas de uma só crise: a crise de percepção. Consequência, segundo o autor, da aplicação de conceitos que resultam de  uma visão obsoleta do mundo, mecanicista, fragmentada, repleta de percepções estreitas da realidade, incapazes de funcionar num mundo global, onde fenómenos biológicos, sociológicos, económicos e ambientais são interdependentes.

Para Capra, o novo mundo exige uma nova visão, que envolva a compreensão integral dos fenómenos e não apenas das duas partes, isoladamente, em cada uma das ciências. Um olhar abrangente que, segundo o físico, já se verifica em alguns movimentos por esse mundo fora, embora ainda sem o reconhecimento de que as suas intenções se inter-relacionam. Assim que isso acontecer – antecipa – estaremos perante o início de uma poderosa força de mudança social.

Despertar a consciência colectiva é também o objectivo do chileno Alfredo Younis, ex-economista do Banco Mundial, e actual presidente do Instituto Zambuling para a Transformação Humana. Também ele (em entrevista nesta edição) acredita nos benefícios de uma visão integrada do mundo, resultado da percepção da existência de valores que são comuns a todos nós – como a paz, a tolerância, a segurança, ou a igualdade – e que estão na base daquilo a que designa de “economia espiritual”. É desses valores que é feita a consciência colectiva. É através dessas “lentes” que deve ser olhado o mundo.

Ao adoptar uma perspectiva de conjunto, sentimo-nos co-responsáveis pela realidade em curso. É como ver o mundo coberto de um cobertor gigante: ao puxar de um lado vai faltar do outro. E fica escarrapachada a cara de quem do outro lado ficou destapado. Emerge o apelo da integridade. A percepção de que, no essencial, somos movidos pelos mesmos valores, abre espaço ao diálogo, ao consenso, à construção, à expansão e ao crescimento. Não existem dois lados da barricada.

Economia espiritual e liderança

A espiritualidade há muito que deixou de ser matéria estranha à economia. Veja-se o livro Inteligência Espiritual, publicado em 2001. Depois de Inteligência Emocional (de Daniel Goleman) ter mostrado, na década de 90, que para ser bem sucedido não bastava ser um génio, era preciso saber lidar com as emoções, o livro de Dana Zohar vem evidenciar o potencial daqueles que, de forma constante, questionam o sentido das coisas e procuram agir em conformidade com o seus valores e convicções mais profundos.

Segundo a autora, as pessoas espiritualmente inteligentes praticam e estimulam o auto-conhecimento, deixam-se conduzir por valores (são idealistas) e têm a capacidade de encarar e utilizar a adversidade de forma construtiva. Têm ainda a capacidade de colocar as coisas num contexto mais amplo (resultado da sua visão de conjunto), valorizam a diversidade, perguntam sempre "por quê?", são independentes, espontâneas e revelam compaixão pelo próximo.

Um líder com estas características identifica oportunidades onde os outros encontram problemas, é carismático e mobilizador, o que pode fazer toda a diferença no mundo dos negócios, sustenta Zohar.

Célia Marques Leiria Económica

 Nota: (Artigo publicado na revista 250 Maiores Empresas de Leiria, editada pelo Jornal de Leiria e distribuída a 21 de Novembro de 2008 com o semanário e jornal Público)

 
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